Natureza

Tempestade de calor Vera cobriu 85% do planeta: o que o recorde mostra

Durante 367 dias, entre 2023 e 2024, uma mesma sequência de ondas de calor chegou a cobrir quase 85% da superfície do planeta. O dado faz parte de uma análise da agência Reuters publicada em 24 de outubro de 2026, que batizou o evento de “Tempestade de Calor Vera” e o apontou como o maior já registrado desde 1960, segundo reportagem reproduzida pelo InfoMoney.

  • 85% do globo coberto no auge do evento, inclusive regiões polares;
  • 367 dias de duração, entre 2023 e 2024;
  • cerca de 102 tempestades de calor por ano na década atual, contra 5 nos anos 1960.

A análise não é um artigo científico revisado por pares. Os jornalistas cruzaram temperaturas horárias de mais de 1 milhão de pontos do globo, com dados do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), e consultaram cerca de duas dezenas de meteorologistas e climatologistas para validar o método.

 

1%: a régua que transforma onda de calor em tempestade

A Reuters usou duas definições. Onda de calor é qualquer período de pelo menos cinco dias seguidos em que a temperatura fica entre os 10% mais altos da série histórica de 1961 a 1990 naquele ponto. Quando uma dessas ondas, em algum momento, cobre pelo menos 1% do planeta, ela passa a ser chamada de tempestade de calor.

A ideia de dar nome próprio aos eventos, como se faz com furacões, foi da própria agência. Para Anthony Leiserowitz, da Universidade Yale, nomear é “uma forma poderosa” de as pessoas perceberem o fenômeno.

 

De 5 para 102 por ano: a multiplicação desde os anos 1960

IndicadorDécada de 1960Década atual
Tempestades de calor por anocerca de 5cerca de 102
Dias excepcionalmente quentes causados por elascerca de 3%quase 43%
Maior evento da década6% do planeta por 46 dias85% do planeta por 367 dias

No mesmo período, a área média atingida por ondas e tempestades de calor cresceu mais de 12 vezes, enquanto a concentração de dióxido de carbono na atmosfera subiu mais de 30%. Do outro lado, a área afetada por ondas de frio em um dia típico de inverno encolheu quase 80%.

Terreno árido com vegetação seca
Imagem ilustrativa de seca. Foto: James Frid / Pexels

 

6.681 dias sem pausa: a cascata que começou em 2008

O número que mais chama atenção dos pesquisadores ouvidos pela Reuters não é o tamanho de Vera, e sim a continuidade. Desde 6 de julho de 2008, sempre houve pelo menos uma tempestade de calor ativa em algum lugar do mundo. São mais de 18 anos seguidos.

Nos anos 1960, essas “cascatas” duravam em média dois meses. No começo dos anos 2000, já chegavam a nove. Entre 1960 e 2008, só cinco tempestades passaram de um décimo do planeta; a cascata atual reuniu 56.

 

Meio milhão de mortes por ano: o peso para a saúde

O calor é estimado como causa de quase meio milhão de mortes por ano no mundo, segundo os dados citados na reportagem. Durante Vera, mais de 1.300 peregrinos morreram no Hajj, na Arábia Saudita, com 51,8 °C registrados na Grande Mesquita de Meca. Professores nas Filipinas relataram alunos com sangramento nasal em salas a 38 °C. A análise também cita estudos que associam esses eventos a natimortos e pré-eclâmpsia.

“O calor é o maior assassino das mudanças climáticas”, resumiu James Renwick, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia.

 

1,47 °C acima do pré-industrial: onde o Brasil entra nessa conta

A temperatura média global de 2025 ficou 1,47 °C acima do nível pré-industrial, segundo a reportagem. O texto da Reuters não detalha o Brasil, mas o país também está no radar: o Inmet prevê temperaturas acima da média em grande parte do território entre outubro e dezembro, com risco de novas ondas de calor, conforme previsão divulgada em 24 de outubro e reproduzida pelo InfoMoney com dados do Inmet.

Some-se a isso o El Niño, que pode chegar forte ao verão, como explicamos em El Niño 2026 pode ser recorde: o que esperar do verão no Brasil.

 

Como usar esses números a seu favor no verão

Os dados mostram que dias de calor extremo deixaram de ser exceção. A atitude mais útil é tratar os alertas do Inmet como aviso de ação, não de curiosidade: cadastrar o celular no serviço de alertas da Defesa Civil (envio de SMS com o CEP para o número 40199), planejar atividades ao ar livre para o início da manhã e acompanhar de perto idosos e crianças pequenas da família nos dias marcados em laranja ou vermelho.

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