Mais de 7,5 mil previsões de El Niño e La Niña, geradas por modelos climáticos de nove países, foram reanalisadas em um estudo publicado em 23 de outubro de 2026 na revista Science Advances. A conclusão dos pesquisadores da agência científica australiana CSIRO e da Universidade de Melbourne é que o estado do Oceano Pacífico no dia em que a previsão começa indica, com boa antecedência, se ela merece confiança um ano depois.
Na prática, o trabalho não cria um modelo novo. Ele oferece um filtro: dependendo da fase em que o Pacífico estava no início, a mesma previsão de longo prazo pode ser bem mais ou bem menos confiável. Para quem acompanha o efeito do fenômeno no verão brasileiro, isso muda a forma de ler os boletins.
| Número | O que representa |
|---|---|
| 7,5 mil | Previsões históricas analisadas |
| 9 | Países de origem dos modelos climáticos |
| Mais de 70% | Acerto de três modelos ao prever, com um ano de antecedência, a virada para El Niño partindo da La Niña |
| 9 meses | Horizonte a partir do qual prever a fase do fenômeno vinha sendo difícil |
| 6 meses | Antecedência com que eventos costumam ser previstos com confiança |
Acima de 70%: o desempenho quando a previsão parte da La Niña
O achado principal, descrito no resumo do artigo, é que as previsões iniciadas durante a La Niña foram as melhores. Três modelos acertaram a transição para o El Niño com um ano de antecedência em mais de 70% das vezes. A coautora Mandy Freund, da Universidade de Melbourne, disse que o bom desempenho apareceu em todos os nove modelos testados, o que sugere que algo nas condições de La Niña deixa o Pacífico tropical mais previsível ao longo do ano seguinte.
A primeira autora, Nandini Ramesh, da CSIRO, afirmou que o objetivo é saber de antemão quais previsões merecem mais confiança e, com isso, permitir alertas mais cedo.

Mais que a escolha do modelo, pesa o ponto de partida
Segundo o artigo, a variação de acerto ligada à fase inicial do fenômeno supera com folga as diferenças entre um modelo e outro. Em outras palavras: saber em que estado o oceano estava quando a simulação começou diz mais sobre a confiabilidade do resultado do que saber qual centro meteorológico rodou a previsão.
Isso importa porque os eventos de El Niño e La Niña costumam atingir o pico por volta de dezembro e, em geral, só são previstos com segurança cerca de seis meses antes. Os autores tratam a barreira dos nove meses como o limite que vinha resistindo às tentativas de previsão de longo prazo.
Fase neutra: onde as previsões de um ano mais falham
O lado oposto do achado é menos animador. Previsões iniciadas com o Pacífico em condição neutra foram bem menos confiáveis, e os modelos baseados em processos físicos tiveram mais dificuldade nesse cenário, de acordo com o relato do estudo publicado pelo Olhar Digital. Para esses casos, os pesquisadores apontam espaço para métodos estatísticos e de aprendizado de máquina. Eles também avisam que a abordagem ainda precisa de desenvolvimento antes de entrar nos sistemas usados pelas agências de previsão.
+2,1 °C no Niño 3.4: o ponto de partida das previsões feitas agora
As previsões que estão sendo rodadas neste fim de outubro partem de um cenário de El Niño em pleno vigor. A discussão mensal do Centro de Previsão Climática da NOAA registrou anomalia de +2,1 °C na região Niño 3.4 e chance de 83% de o evento superar, entre outubro e dezembro, todos os registrados desde 1950. A agência americana considera provável um El Niño de forte a muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.
O que esse quadro significa para o verão brasileiro, com mais chuva no Sul e risco de seca no Norte e no Nordeste, está detalhado na reportagem sobre o El Niño 2026 que pode ser recorde. O estudo novo acrescenta uma camada: os resumos divulgados destacam o bom desempenho a partir da La Niña e o fraco a partir da fase neutra, mas não detalham o acerto de previsões que começam durante um El Niño. Por isso, projeções para o fim de 2027 feitas agora devem ser lidas com cautela.
Como ler um boletim de El Niño para os próximos meses
- Veja em que fase o Pacífico estava quando a previsão foi feita.
- Observe a antecedência: até seis meses, a confiança costuma ser maior; além de nove, bem menor.
- Dê mais peso ao consenso de vários modelos do que a um único resultado.
- Para decisões locais, como plantio ou obras, use os boletins do Inmet e do Inpe, que traduzem o fenômeno para cada região.
A próxima discussão oficial da NOAA sobre o El Niño está marcada para 12 de novembro de 2026. É nela que vai aparecer se o evento manteve a trajetória de recorde prevista para o fim do ano.











